Santa Tartaruga

"Let's get together and feel all right"



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Desenrolo

Para mim, o sentido das coisas
é uma pipa que Deus tava soltando
e avoou

E esses Sartre, Marx, Eistein
Platão, Da Vinci, Darwin
são tudo uns menino tacando marimba
pra tirar ela do fio

Antes eu queria ver se alguém
conseguia tirar,
sem estraçalhar ela toda

Agora eu só quero saber
quem foi que passou
o cerol na pipa do cara

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

pretensões de pensar

* Se não fosse o todo, eu não seria quem eu sou. Provavelmente até minha aparência seria diferente, o nome? Teria nome? Algumas coisas se preservariam, certamente, mas também algo desvanece. Ainda assim, tendemos a valorizar mais o que é único em cada um... o que é único?


* como um troço tão grandioso cabe em três sílabas. É como aquele momento de fricção das galáxias conhecidas até o instante de um primeiro beijo.


* O beijo é sempre do outro. Assim como a massagem. No auge de meus 25 anos, me dando conta mais que nunca, a distância da infância, tenho essas asserções. Na mais tenra idade, raro era o dia que as brincadeiras não me exigissem vitalidade. Não havia cãibras, afogamentos, e exaustões tão frequentes como as de agora. Hoje careço muito mais de massagem, porque é outro metabolismo, outra rotina, tenho os músculos tensos. Para isso preciso de outras mãos, por mais que consiga tocar os próprios ombros. É preciso que outros músculos enrigeçam no propósito de relaxar os meus. Assim como o beijo, que só alcança a plenitude na cumplicidade do gesto.

* Como a massagem, o beijo. São questões físicas que impedem que se pratiquem a si. Nós beijamos a face, ou algum lugar na face, geralmente.
Quando Valesca Popozuda cantou "Beijinho no Ombro", foi a licença poética que lhe garantiu o sucesso ou salvou do ridículo. Ela fala de um amor próprio com a expressão. A licença poética é o que nos salva para irmos onde precisamos ir.

* Gilles Deleuze solicita essa licença para dar sua última entrevista, invocando a condição de "puro espírito" (um desencarnado); e de que a entrevista só seria publicada após sua morte. De modo que ele poderia se dar a licença de falar sem a cobrança da clareza, e sim com as metáforas dos defuntos. As metáforas, parábolas, analogias, as imagens, encenações ensinam mais que os códigos linguísticos...


* Quando entramos numa com a indústria do cigarro, mais que aumentar os impostos, ou encarecer o produto, tomamos a medida de proibir a publicidade, e de incluir outra publicidade (a da advertência). A ação é concentrada na imagem, pois um dos maiores apelos para o consumo de cigarro não é a nicotina (o orgânico), mas a estética (sombras na caverna?).


* A arte fala conosco como Deus falaria.


* Jesus igual gente. O primeiro milagre foi transformar água em vinho (que se transfigura em sangue, no rito eucarístico). O último milagre foi jorrar sangue e depois água do coração furado pelo soldado. Sangue e água simbolizam duas coisas diferentes. Jesus fez o movimento de ida e volta


* reflexão sobre a opinião - doutorado da rejane. opinião de ignorantes - opinar sobre um assunto que se tem pouca informação a respeito para não passar atestado de "ignorante", "alienado"... demanda, opiniões a varejo, na vitrine, fiado...


* as camadas de cebola: a necessidade de opinar em tudo. a juventude como o ponto mais radical e preconceituoso da sociedade. Caetano e o Proibido Proibir (o preconceito desmistificado contra a tv, contra os americanos) A referência não é americana, é o que pessoas americanas podem fazer, a referência é bob dylan, um músico americano e não a música americana de bob dylan. para caetano, vale mais o estilo que o gênero (a luta por uma música brasileira)

* "a felicidade" - não precisa escolher uma versão preferida - essa auto afirmação cai no campo das falsas questões. tom jobim, tom zé, bituca, quem mais??

* vale mais a estética que o gênero (a luta contra a guitarra por uma "criação" de "brasilidade")


* a defesa da família é a defesa da família própria, das heranças perpetuadas num sobrenome, esse sistema que criamos. se não tem documento, não existe, não é mesmo sargento? papel do jornalista de documentar (eliane brum e o caso dos analfabetos e sem documentos de propriedade de terra) a oralidade - ponte.


* educação sentimental são as novelas (sempre falam de família e briga por dinheiro - a mistura é essa)


* quando vc reclama que na sua rua não tem ciclovia, tem rua que tá faltando tratamento de esgoto. quando vc reclama que na sua rua tem cocô de cachorro, tem rua que tem cadáver. é uma questão de necessidades. que tamanho tem o seu umbigo?


* o surgimento do tráfico, al capone, falsificações, lorenzo daza (o amor nos tempos do cólera - leiam!), especulações, esquemas de corrupção se assemelham,existe o bandido de colarinho branco (termo que a rapaziada, que não é boba nem otária usou pra designar os malandros otários) bandidos que se diferenciam pela capa da hipocrisia. o valor do bandido marginalizado acaba sendo a honra de não se fingir de santo, é com isso que o povo se identifica, com charles anjo 45


* "a nossa sociedade pretende formar doutores e não sábios" - pelo valor que a palavra agrega (a semiótica) os títulos de autoridade - autoridade policial (polícia), juiz (árbitro), patente alta (lembrar o funk - sujeito de respeito), jornalista, artista, poeta, o nosso século transforma substantivos em adjetivos pela necessidade do parecer ser


*A IMAGEM - peças falsificadas pelo valor da imagem. Ensinamos que não vale tanto o que se é, mas o que parece ser. Imagem por Imagem, também vende Louis Viton na favela. No ensino médio, todos os meninos querem ser playboy.


* família marinho, macedo, família neves, família roussef e a família silva


* nosso milênio ainda é muito jovem para admitir a nobreza dos negros, índios e nordestinos que construíram nosso país.


* um segredo guardado como a última página de um livro.


* O que o negro pensa do índio - reflexões sobre ancestralidade, pangéia, quem é o branco (para o índio, para o negro), filosofias religiosas, filhos de Abraão...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

ranço cansa
a humilhação
sob joelhos

toda sorte
paira sobre o não
um país de peito amarelo
país de olhos vermelhos

às duas da tarde
uma fração da bonança
a costa de zé arde
o pé de José descança

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

quando somos

tu és luz morena
eu lúdico tu poema
eu brilho tu cinema
eu tom tu ipanema

tu és vivo cheiro
eu folha tu tinteiro
eu sereno tu mosteiro
eu moço tu puteiro

tu és bendita menina
eu íris tu retina
eu sertão tu cajuína
eu carnaval tu colombina

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Nego maravilhoso


é Paulinho da Viola,
e os menino jogando bola
é Gilberto Gil
como como nunca se viu
é o berço da escola
que embala Cartola
é Jards Macalé
na ponta do pé
é o B Negão
na estética do arrastão
é Tereza Cristina
no dia de sabatina
é Milton Nascimento
sol, flor, céu e vento
é Ataulvo Alves
para os orixás, mil salves
é Jovelina
mais lenda
que Helena, a grega
a linda
pérola negra
é Zica
que o povo suplica
é gente bamba
os Originais do samba
de roda e terreiro
na mão de Jackson do Pandeiro
o brasileiro sabe bem
dos breque de Jorge Ben
e da maestria
de Luiz Melodia
é Juçara Marçal
por bem ou por mal
é Pixinguinha
com feijão e farinha
é Wilson Batista
no coração do maquinista
é Wilson Moreira
no viaduto de madureira
é Arlindo Cruz
e Clementina de Jesus
Seu Jorge
e se não me foge
é Ismael Silva, Elza Soares, Falcão, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Nei Lopes, Black Alien, Sandra de Sá, Péricles, Carlinhos Brown, Martinho da Vila, Emicida, Alcione, Jair Rodrigues, Mano Brown, Candeia, Nelson Sargento, Jamelão, Zé Keti, Bezerra da Silva, Marcelo D2, Dicró, Sabotage, Jorge Aragão...

é tanto nego maravilhoso
que o mulato mais clarinho
já sai pagando de gostoso

sábado, 3 de maio de 2014

girassóis ou origamis

um dia, o cahorro de ana morreu e ela estava muito triste
rebeca, sua amiga, lhe deu um origami
isso foi há muitos anos e nem ana, nem rebeca se esqueceram
ana perdeu o origami numa mudança, acredita-se
três dias depois, téo o achou, a caminho da estação de trem. era tão bonito. ele o deu a clarice
e foi a última vez que se viram
clarice o pendurou em cima do berço de davi, cantou para ele e beijou sua testa.
tempos depois, davi o encontrou enquanto revirava pertences antigos e memórias tenras,
em busca de inspiração.
depois disso, entornou algumas lágrimas, guardou tudo e foi se deitar
e o sonho foi bom
o amor é uma coisa que voa de mão em mão
e seria amor também se fossem os girassóis de van gohg

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sobre a guerra e o que se faz com ela

       Ultimamente, sigo meio alheio ao cerne de nossas pautas. Se é que ainda posso me incluir nos beneficiários dos "acontecimentos" cotidianos. Eu sei que meu bedelho não vai lá certeiro como o de meus colegas e mestres - que se expõem com bem mais dignidade que eu às questões que emergem nas creches publicitárias e universitárias (desculpem) - mas sei que há também quem ainda me releve e não se negue a saber como vivo tais pautas às suas margens.
       No meio de tantas bombas, cabeças, objetivas, ninjas e labaredas, sou eu o tal do marginal. Marginal principalmente porque nem me cabe
a convicção poética dos jornalistas
nem a pele rubra dos ativistas
ou a melancolia cética dos poetas.
Eu caberia na pauta, ora, se pudesse pagar para ver. Todavia, conquanto minha lamentação ainda se pareça com uma ferramenta inofensiva, esses atores me toleram. Por meu nobre discurso e revelações, grandes multidões (só se fala em massa) esperam. Eu os amo e temo desferir sobre eles, sobre mim, sobre nós o ensejo de uma coisa vã, que é a opinião. Principalmente a minha, maculada por profetas e abjetas filosofias. Ofereço, em vez disso o que me redime a omissão e garante um sono menos imperfeito. Singela e nem tão minha: reflexão.
      Acerca das mobilizações que se sucedem no país, seja lá qual for a motivação, penso que a reivindicação dos homens é fúnebre, pois é fio solto da memória e fruto da morte de muita gente. Nisso, pensei de entrevistar Drummond que, ironicamente já faleceu, mas continua ainda
(O) sobrevivente

Eu - Caríssimo, a recente conjuntura dos brasileiros em relação ao seu país lhe estimula os versos?

Drummond - Impossível compor um poema a essa altura da
                      evolução da humanidade.
                      Impossível escrever um poema - uma linha que
                      seja - de verdadeira poesia.


Eu - Acreditas que o atual momento do Brasil inflige consequências à poesia/à sua poesia?

Drummond - O último trovador morreu em 1914.
                      Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
                      Há máquinas terrivelmente complicadas para as
                      necessidades mais simples.
                    

                      Se quer fumar um charuto aperte um botão.
                      Paletós abotoam-se por eletricidade.
                      Amor se faz pelo sem-fio.
                      Não precisa estômago para digestão.


Eu - A crença no progresso por meio dos aparatos (termo jurídico?) configura um equívoco para o senhor?

Drummond - Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
                      muito para atingirmos um nível razoável de
                      cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
                   

                      Os homens não melhoram
                      e matam-se como percevejos.


Eu - E como o senhor sobrevive em meio a tais circunstâncias?

Drummond - Os percevejos heróicos renascem.
                      Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
                      E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
                      (Desconfio que escrevi um poema.)


Eu - Obrigado, poeta.

Além da breve entrevista, outras propostas me deram cabimento para refletir. Eis os links (copiar e colar):

rolezinho - https://www.youtube.com/watch?v=737brquoD88

"Tá com dó, leva pra casa" (destaque para os comentários) - http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ta-com-do-leva-pra-casa-9077.html

batman, tolerância e ameaça comunista - https://www.youtube.com/watch?v=9_m40U2005E

Elegia 1938 - http://www.casadobruxo.com.br/poesia/c/elegia.htm

preocupação de Otto - https://www.facebook.com/Oficial.OTTO/posts/760094490684678?stream_ref=10

repórter cinegrafista morto por rojão - https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=UhIh7zk3rUM

Por tais ponderações, inferi, ou melhor, refleti que é possível dizer, vejam bem, dizer coisas belas a pessoas nem tão belas, já que o dizer só ganha beleza no ouvido dos outros; é possível fazer notícia ou poesia concomitante a uma guerra, mas para texto incompleto só vale publicar o do poeta; para o produto da coisa jornalística - a notícia, importa mais a bala, de quem quer que seja e para isso tanto vale tacá-la na cabeça de quem ama, clama ou verseja.
Mas há no meio disso uma terrível aflição que não notamos. A aflição que não nos suporta, talvez por sermos jovens, é a da palavra. Por submetê-la a inquisições, por fazê-la admitir vocação para ordem, dissabor ou opinião. A palavra não morre, apenas sofre. Por nossas vozes e textos, aplicam-se sentenças, veredictos, lamenta-se, xinga-se, a palavra sofre, decreta-se ordens, desordens, surras e cárceres, ela machuca, comove, conclama, ela é uma santa a palavra, não morre.

sábado, 25 de maio de 2013

uma madrugada apagada no cinzeiro
eu acendia a fim de ascender
tentava poesia
e nem sei se terminava
tornava a adormecer

"Olha, Pessoa. Que me diz dessa poesia?"
Ele olhava com atenção. Penso que lia mais de uma vez, pelo tempo que demorava com os olhos no texto.
Movia os lábios como se balbucia a lembrar d'uma equação. E em seu rosto eu lia três expressões, que embora não se contradissessem, tampouco se completavam.
Eu avistava Drummond e lhe chamava: "mestre, que podes me dizer deste textículo?" Já pessoa se dispersara em caminhos distintos. Ora, Carlitos tirava os óculos para ler, terminava, e já me dirigia a sentença redonda como suas caricaturas... quando um pivete lhe furtava os óculos e ele, definitivamente calava.

"Não é possível"
Leminski acenava. "Este há de me dar um parecer", pensava.
Apareceu e...
até parece.
disse:
"para fazer um bom poema
caríssimo
não se apresse
recomendo três dias de paciência
um abraço
e uma prece"

até que chegou o Manoel de Barros, olhou e perguntou: "o que é?"
Eu disse nada. Ele tomou nas mãos, olhou de cabeça pra baixo, passou baba de eclipse e sentou em cima do poema,
fitando a paciência nas folhas
e finalmente disse: "rapaz, está uma merda isso aqui!"

meus olhos encheram d'água.
também sou fraco para elogios.

sábado, 13 de abril de 2013

O Poeta Aprendiz

Para quem não se lembra, "O Poeta Aprendiz" é a única coisa que ainda permanece da organização inicial do blog. Deveria ser uma espécie de postagem fixa onde eu postaria poemas (próprios e de outros). O único postado sem ser de minha autoria, até agora, foi o próprio "O Poeta Aprendiz", de Vinícius de Moraes. Eis aí outro de outro.


Poema da buceta cabeluda
A buceta da minha amada
tem pêlos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.

A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.

A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.

A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.

A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.

Bráulio Tavares

O discurso

Há que ser burro o suficiente para não ter pudor em desrespeitar o ser humano publicamente.
Várias páginas de corporações militares se valem ultimamente das redes sociais para propagar ainda aqueles velhos conceitos arcaicos e facistas.
Aqui, dentre os meus amigos mais alienados, surgem várias postagens se referindo a criminosos como vagabundos, demonstrando qual é a prerrogativa do tratamento que essas pessoas "merecem", em seus pontos de vista. O cúmulo foi um vídeo que chegou até mim, de um suposto "bandido" morto, com o corpo perfurado por inúmeras balas, disparadas provavelmente pelos homens da lei. O título do vídeo? "É isso que acontece com vagabundo quando bate de frente com o BOPE."
O que esses animais não entendem (ou não fazem a mínima questão de refletir um pouco sobre), quando fazem campanha para que infratores menores sejam julgados como maiores é que há muito o sistema penitenciário falha miseravelmente na reabilitação dessas pessoas. O que será que quer dizer cidadania para eles? Um exemplo simples de como o país exerce a inclusão social está nos editais de concursos públicos. "Dos requisitos para investidura do cargo: f) não possuir antecedentes criminais ou civis incompatíveis com o exercício do cargo;" Por quê?
Sou até inclinado a crer que grande parte desses ativistas virtuais sequer já foi a alguma prisão ou conhece alguém que esteja preso. Ignoram que mandar menores para penitenciárias pode significar uma sentença definitiva. Pelo menos enquanto durar a lógica penitenciária vigente. Rasga-se a integridade na consciência.
A revolta aqui não é necessariamente em relação às campanhas favoráveis a mudança na legislação. Se nos parece que crimes cometidos por menores ainda recebem julgamento ineficaz. Ou ainda deixam a impressão da impunidade, pensemos então em novas possibilidades, mas não me venham com esse discurso infeliz de que "tacar esses vagabundos em prisão" resolve o problema.
Que diabo será inclusão social? Reabilitação? Nunca ouvi falar. E punição legal, só sei de ouvir dizer.

terça-feira, 9 de abril de 2013

a curiosidade
germina asas
abrasa, treme espasmos

a pluviosidade
abre aspas
não paira
não cessa
salta e desce

mor notícia
das corridas
as vespas tímidas
as vezes íntima
fadiga

e saudades torrenciais

terça-feira, 26 de março de 2013

despudorado

entrava-se pela palma da mão esquerda e transpirava dessas vias luzis.
e pelos buracos da cabeça via-se de dentro pra fora feixes de realidades móveis
como as gelatinosas visões de dentro da cabeça.
descia reto para dos pés saber de flor, raiz e fruto
um pequeno par de asas recém colhidas e dali um passo pra ficar gigante,
artista e sem teto.
sem um puto e em si, logo queria sorver-se.
fez-se mesmo do avesso de luz,
tragou-se todo e meteu-se a transcender ali mesmo
no meio do povo.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

substancial

Difícil classificar a obra de arte como ruim ou boa, não? Talvez porque o sentido pode ser sugerido na proposta do artista ou solicitar complemento, que nasce no "olhar" do espectador. Isso pode confundir a classificação. De modo que o artista parece ter o arbítrio da imaginação e livremente criar. E me refiro aos que criam arte, ainda que sofram influências de outros artistas e/ou movimentos. Mas trabalhemos com a distinção entre influência de movimento artístico (seja o rock, a pintura surrealista ou a culinária maranhense) e padronização estética. Esta última é frequente no cinema e na música. Reparem.

Pois bem. Permitam-me fazer uma comparação: que tal o jornalista, tal qual o artista, libertar-se para criar? Ora, não iria nada mal se a tendência fascista do “padrão” dormisse antes de acordar.
Perdoem o versinho tolo, mas penso que o modo jocoso atrai o leitor curioso para uma prosa que parece tonta, mas ta quase pronta pra sacudir os miolo.
Ai, quem me dera que eu fosse Tom Zé que faz que fala de sacanagem, mas trata de uma puta malandragem pra dizer ao povo das fuleragens que os homens dizem que é normal.

Um exemplo bacana: meus colegas de turma que organizaram a Semana Acadêmica de Jornalismo na Rural fizeram uma entrevista com o jornalista Juan Arias. Ele é correspondente do El País (jornal espanhol) e contou de uma ideologia da publicação: “fazer o melhor jornal possível, para atingir ao leitor ideal”. Algo nesse sentido. Leitor ideal me parece que seria aquele que sabe olhar o jornal de forma crítica, que vê a publicação como um conteúdo a ser refletido, antes de consumido. Ideal, ideal mesmo também seria aquele leitor que conhece os seus direitos como cidadão no que tange ao direito à informação e deveres dos veículos de comunicação e aquele que enxerga os meios de comunicação como canais que devem levar informação, olhares, apontamentos, denúncias. Basicamente, desvendar as nuances da sacanagem pública.

Voltando à comparação/inspiração, penso que escrever sob a égide dessas prerrogativas daria ao repórter o arbítrio da imaginação. Sim, meu caro. A criatividade é substancial à prática jornalística. E a libertação desses modelos de abordagens dos assuntos e redação das matérias também enriqueceria igualmente a causa. Arias diz que escrever para o leitor ideal também implica fazer o melhor jornal possível. Isso não significa, todavia, atribuir ao leitor a responsabilidade de possuir uma gama de conhecimentos necessários para adentrar no texto. Como na arte, é a sensibilidade a chave mestra do acesso à obra.

Nessa esdrúxula comparação, vislumbro a interseção das partes principalmente na paixão. Pela obra, pela causa, não importa. No entanto, há que se fazer ainda uma distinção crucial: não havendo o espectador ideal para a arte, consideremos que distinguir a reportagem boa da ruim não é tarefa tão árdua. A prática ajuda.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Saldo sujeito

Se você ingeta ar no verbo, ele se perde no tempo
Ou você pode fazer luzir o lazer

Hoje fui dormir com pé de sementes
Um manoel despertou-me da mania de objetos celestes

Perdi-me das dimensões métricas de universo
Agora sou paraphernália paralela

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Olhos de Ressaca

Tá aí a perdição de Bentinho: Tal qual droga, o amor aguçou-lhe os sentidos. Fitou os olhos da amada e esses lhe tragaram. Danou-se para sempre, impotente e vertiginoso, por debaixo das páupebras de Capitu.





*Talvez por isso o olhar macro seja restringido à tecnologia, que não morre, nem se apaixona.
http://www.behance.net/gallery/Your-beautiful-eyes/428809

terça-feira, 3 de julho de 2012

Ainda sem título

Primeiro texto do Santa T. com dedicatória: Atenção!


Dedico este texto ao meu amigo Thiago Barros, o passarinho, com quem já tive a oportunidade de decolar muitas vezes. Juntos e reunidos numa pessoa só.

Pessoas não servem para enfeitar salas de estar
nem passarinhos para gaiolas
é verdade que a vida sempre exige um pouco mais dos tolos,
mas também torna artistas aqueles que abrem mão da lucidez

e assim como as asas podem muito mais que voar
assim é o peixe que se atreve a sair do mar.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Chico

Chico

Desde que conheci Chico, me apaixonei por sua arte, ansiava pelo momento: O momento. 
Não me recordo, com precisão, com que idade passei a me interessar por sua obra. Mas, confesso que esperei seis anos em contagem regressiva pela ocasião de seu show ao vivo. Seis anos por causa de uma conta maluca que eu fiz em 2006. Pela minha lógica, esse seria o "hiato" até o próximo show, como de fato aconteceu. Até que não houve desconforto na espera. Com o tempo eu pensava comigo mesmo: "Não se afobe não que nada é para já, o amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio... num fundo de armário, na posta-restante, milênios, milênios no ar..."


20/01/2012
Atrasei-me. Confesso, minha irresponsabilidade nunca custou tão caro. Quase uma frustração terrível e meu coração em “disparada” inquietude. Eu ainda não estava com o ingresso, e a situação e demora só me deixavam mais "injuriado". Enfim adentro o recinto e lá está o “velho Francisco”, “de volta ao samba”. Para meu “desalento” o show havia começado há tempos (cinco músicas). Procuro meu lugar, achei: topei com alguns (des)conhecidos meus, me dão boa noite. “Boa noite!”. E neste momento em que me acomodo, ainda com as mãos trêmulas, blazer, corpo suado e sem a exata noção do momento, finalmente olho para o palco: 
Puta que pariu!

...

Não sei se quem esteve presente foi meu corpo ou minha alma, mas recordo-me que durante o espetáculo não houve sincronia entre esses dois. Aliás, penso que não houve tempo para assimilar a situação que eu vivia, mas justamente o próprio Chico "narrava" o que eu vivia: "penso que não dure muito a nossa novela, mas o blues já valeu a pena", dizia ele fixando os olhos nos meus (porra nenhuma). Passei batido junto com a efemeridade do momento e com suas musas, suas faces e facetas: Genis e Zepelins, Anas e Anos Dourados, de Amsterdan, de Holanda, Terezas e Ninas, todas lindas.
Penso que fui vítima de suas canções. Não sei exatamente quando fui arrebatado, Chico falava grego com a minha imaginação, quanto ao meu coração, ora inflava, ora esmagava. Ah, “se eu soubesse” que a arte, mais especificamente a música, e mais intensamente a música de Chico seria “todo o sentimento” que eu julgara "a felicidade"... ah, se eu soubesse, não dava mole à sua pessoa, nem caia na sua conversa mole. Mas acontece que eu sorri. Eu sorri simplesmente e essa expressão congelou em minha face durante aqueles segundos de show. Chico cantava, cantava... jamais o vi tão lindo assim. Chorei, chorei. Chico transitava entre o intenso e o brando e eu ali, como quem não sabe o que sentir. Chico "tem um jeito manso que é só seu", um jeito de fazer rodeios, com lirismo e meneio de poeta e me deixar em brasa e invadir a alma como se minh'alma fosse a sua casa. O que havia de ser vivido, vivi, não sei como, nem onde, nem por quanto tempo, ao ponto que quase me convenço de que nunca estive lá. 
Não me afobo mais, sei que nada é para já, afinal amores serão sempre amáveis...
Como disse o show evaporou, e Chico foi cantando sem pudor a sua última canção... despediu-se: "hora de ir embora quando o corpo quer ficar, toda alma de artista quer partir. Arte de deixar algum lugar quando não se tem para onde ir..."

Ao fim de tudo, louco, feliz e louco eu dialogava com as músicas. Como se Chico me dissesse: "bem vindo ao clube, doidão", não em rap, mas com uma serena canção: "pense em como eu vim de leve, machuquei você de leve e me retirei com pés de lã. Sei que o seu caminho amanhã será tudo de bom, mas não me leve. O meu coração parece que perde um pedaço. Passou este verão, outros passarão, eu passo."
Então convenci-me que apesar de tão efêmero, repentino, tal qual o poeta, o show fora muito bonito. Interpretei Chico, e pude contemplar o tempo alcançar a glória e o artista o infinito.


*O leitor mais atento notará no texto a incidência de alguns "sei" e "não sei" e "achismos". A narrativa de fato é uma experiência que me causou confusões e discrepância dos sentidos. Falo dela por especulações do que suponho que tenha sido. Queria mesmo ir de novo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Iaí, meu? Iaí?

Já diria Drummond: "A bunda que engraçada". Sem discorrer sobre a analogia EUA x bunda, vamos direto ao assunto: tiraram o Megaupload do ar sob acusação de "ter facilitado a pirataria", ferir direitos autorais e tudo mais. Leia a notícia. Pois bem, supondo que eu cancele a assinatura da banda larga e use o dinheiro para comprar mídias de cd e dvd em camelôs. Nada de cadastro no CNPJ, nem contribuição para INSS (no caso do Brasil). Nessas mídias eu gravaria diversos filmes, séries e álbuns de música e daria aos meus amigos, que por sua vez poderiam gravá-los em seus computadores e fazer o mesmo. Não satisfeito, eu pegaria uma parte desse dinheiro para folhas e cartucho de tinta, xerocaria livro(s) e também daria ou emprestaria a outros. Não houve pirataria até então e eu fiz todas as gravações pelo programa Nero legítimo e as xerox pela minha multifuncional HP Office Jet. Que medidas tomariam para censurar a volta que eu dei no Copyright? Ao que parece, até o FBI e o Departamento de Justiça dos EUA, dentre outros já foram hackeados, depois que o Megaupload foi retirado do ar. Como diria um desses memes muito engraçados: "Agora a porra ficou séria". Estamos falando de sistemas de segurança pública. A porra ficou seríssima. Seriam os "subversivos" os mantenedores da democracia ou seriam eles apenas nerds "mimados"? A questão é que eles estão agindo. E cá nós, América inferior (geograficamente), que faríamos sem nossos sites de compartilhamento de dados? Correntes no facebook? Flashmob? Música? Aplausos aos "combatentes" do sistema? Vou assistir Matrix e Clube da Luta e dar uma folheada no Manifesto Comunista. Já volto, com algumas sugestões.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Para de mironga!

O sistema social do país (e por que não do mundo?) ou os hábitos, práticas, costumes culturais, ou o Roberto Marinho ou o Eike Batista, o Tio Sam, não sei... mas, algum desses ou todos são os responsáveis por esse desejo incansável que grande parte dos brasileiros têm de ser burguês.
Destaquei três exemplos que creio reiterar essa minha afirmação e desenvolverei adiante.
Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar os sofistas mais competentes do século XXI: os profissionais de mídia. Sócrates cortaria um dobrado para retrucar esses caras. Não o doutor, o filósofo. Impressionante é ver uma senhora de pouca instrução acadêmica dizer: “Nossa, agora vão querer ensinar o meu filho a falar errado”, ao ler alguma “matéria” nos jornais de maior circulação do país relacionada ao tão comentado capítulo do livro didático do MEC. Eis o primeiro exemplo.
Os parabéns se devem primeiramente à excelência da escola Marinho. A cena mais comum acerca do debate era a seguinte: jornalista pega o tema abacate, disserta sobre os perigos que a maçã pode causar e os telespectadores/leitores/ouvintes se deleitam com essa sobremesa de retórica recheada de ideologia de segregação. Uma delícia! Outra analogia interessante que me parece cabível aqui é o filme Matrix. No primeiro da trilogia, um dos personagens trai Neo por um pedaço de bife suculento, no mundo virtual. A ilusão realmente parece uma delícia.
Causou-se um estardalhaço por causa livro e, no fim das contas, uma questão muito pertinente quase ficou de fora (digo quase justamente por crer que a Teoria Hipodérmica já não se aplica à atualidade e muitos notaram a malandragem): liberdade de expressão é um direito do cidadão previsto na Constituição Federativa do Brasil. Essa, e não a linguística, é a questão central do debate. Se o fulaninho fala “Nóis pega o peixe”, foda-se a concordância verbal. Eu entendi perfeitamente a mensagem e ele não tem menos direito à voz porque não tem instrução para reger uma concordância. O que quero dizer é que o fato de algumas pessoas não falarem a língua portuguesa em sua forma culta, não significa que elas não devam ser ouvidas. Na campanha para presidência de 2002 em que Lula foi eleito, o argumento contra a sua eleição era bem por aí: “Que absurdo! Vão eleger um analfabeto”. Graças à Jésus, houve quem se lembrasse que o “analfabeto” estava muito mais próximo da realidade brasileira do que diplomatas, doutores ou quaisquer outros títulos do gênero, e o cara foi até reeleito.
“Racismo é crime, anti-semitismo nem se fala. A Barra está virando o reduto das classes emergentes e o Paes não faz nada. Já pensou se eu apareço em alguma estatística no mesmo pedaço da pizza (gráfico) que esses pobres, analfabetos? Ah, Deus, isso não!!” – diz o ghost-writer da “Sócia light” brasileira. Tem disso, viu?
O segundo exemplo é o argumento dos pseudo-críticos musicais de que samba é bom, pagode é merda. Não me refiro a gosto musical. Não gostar de determinado gênero é tão comum quanto andar em pé. Refiro-me a colocar um gênero no pedestal para enumerar os defeitos de outro. E isso acontece com qualquer gênero. Agora vocerveja, distinguir a bossa-nova, do samba choro, do samba de morro (ou samba de raiz), do samba de gafieira, do samba-canção, do pagode, da batucada, da marchinha e tantas outras variações do gênero serve para quem mesmo? Para os críticos, né? Ou você acha que Zeca-Pagodinho teme que a sua música seja denominada pagode? Ele quer mais é samba, nego. Samba em todas as suas variações instrumentais, poéticas e rítmicas. É uma pena que nem a arte tenha escapado dessa cultura de segregação. Impossível negar que tantos se apóiem em gêneros musicais consagrados por sei-lá-quem para se auto-afirmar culto. Mas que tolice, meu Deus!
O terceiro exemplo, claro, eu não poderia deixar de comentar, são as redes sociais (be careful). Especificamente, a migração de internautas do Orkut para o Facebook. Até aí, questão de gosto. O Facebook deve ser mais organizado, interativo... enfim, não se discute. Mas, o que considero discutível é o fato de centenas e centenas de comentários do site determinarem o Orkut como lugar de “favelado”, gente feia e retardatários digitais, dentre outros. “Ai que droga! Esse povo que fica querendo ‘orkutizar’ o ‘face’” – lê-se. Como se mais da metade dos usuários brasileiros não tenha migrado de um para outro. Até as práticas sociais/digitais servem como ferramenta de segregação. “O pobre, o feio, o burro tem que ficar para lá, bem longe de nós, cultos, belos e inteligentes”. Insistem em “legislar” e segmentar as redes, um dos poucos lugares onde a “subversão” ainda tem espaço e gera benefícios. Aproveito a ocasião para parabenizar os “blogueiros”, gente que fomenta senso crítico e difunde arte, sem propagandas, sem grandes gravadoras, sem custo e sem filiação política. Parafraseando um sábio amigo, “Brigado, Deus!”.
Como esse blog só serve para isso mesmo, está pior que filho de cego, deixo aqui mais um apelo: não segregue as pessoas, por mais foda que você seja. É uma prática burguesa, dos nossos ancestrais colonizadores. Está démodé, ultrapassada. Alôou! A gente é “pobre” mesmo e o Brasil é uma miscigenação rica demais, para se ater a exclusão social, econômica e cultural. Deixem isso para a ficção. Pré-conceito é inevitável, somos assim. Mas creio que o “pós-conceito” é um pouco mais confiável. Jornalistas, críticos musicais e internautas não se aperreiem. Prometemos não bagunçar vossos castelos. Tiraremos os sapatos para entrar.